Artigo, Liderança & Gestão
A crise da média liderança: quando achatar a estrutura começa a comprometer a execução
Empresas estão reduzindo camadas hierárquicas, ampliando o número de liderados por gestor e incorporando inteligência artificial ao trabalho. A promessa é ganhar velocidade e eficiência. O risco é eliminar justamente a camada que transforma estratégia em execução.
Alexander Cabral, 03/09/2026, 12 min de leitura

A crise da média liderança: quando achatar a estrutura começa a comprometer a execução
Empresas estão reduzindo camadas hierárquicas, ampliando o número de liderados por gestor e incorporando inteligência artificial ao trabalho. A promessa é ganhar velocidade e eficiência. O risco é eliminar justamente a camada que transforma estratégia em execução.
Durante anos, “achatar a organização” foi apresentado como
sinônimo de modernização.
Menos níveis hierárquicos. Menos burocracia. Decisões mais
rápidas. Estruturas mais leves.
Com a chegada da inteligência artificial, essa lógica ganhou
ainda mais força. Se sistemas conseguem organizar informações, acompanhar
indicadores, produzir análises e automatizar parte do trabalho administrativo,
parece razoável imaginar que um gestor possa liderar mais pessoas e que as
empresas precisem de menos níveis de gestão.
O problema começa quando eficiência estrutural e capacidade
de liderança passam a ser tratadas como se fossem a mesma coisa.
Não são.
Dados recentes sugerem que estamos entrando em um momento
particularmente delicado para a média liderança. Ao mesmo tempo em que as
organizações exigem mais velocidade, transformação, desenvolvimento de pessoas
e adoção de IA, muitos gestores estão recebendo equipes maiores, acumulando
responsabilidades operacionais e tendo menos tempo disponível para exercer
aquilo que deveria ser a essência da liderança.
O resultado pode ser um paradoxo: na tentativa de retirar burocracia da organização, algumas empresas podem estar retirando também uma de suas principais estruturas de execução.
O gestor está ficando maior mas sua capacidade não
necessariamente está
Uma das mudanças mais importantes ocorre no chamado span
of control: o número de pessoas que respondem diretamente a um gestor.
Dados publicados pelo Gallup em janeiro de 2026 mostram que
o número médio de pessoas por gestor nos Estados Unidos passou de 10,9 em
2024 para 12,1 em 2025. Desde que o instituto começou a acompanhar esse
indicador, em 2013, o tamanho médio das equipes aumentou quase 50%.
O dado mais importante, porém, não é apenas o crescimento.
Segundo a mesma pesquisa, 97% dos gestores também exercem
algum tipo de atividade de contribuição individual, além de liderar
pessoas. Em média, eles destinam cerca de 40% do tempo a trabalhos que não
são propriamente de gestão.
Quando o número de liderados aumenta sem que essas outras
responsabilidades sejam retiradas, surge uma equação difícil de sustentar.
Mais pessoas para acompanhar.
Mais decisões.
Mais interfaces.
Mais problemas.
Mais indicadores.
E a mesma quantidade de horas.
O próprio Gallup alerta que aumentar o span of control
sem reduzir a carga individual do gestor pode enfraquecer a gestão de
desempenho no dia a dia, justamente porque compromete a performance do próprio
líder.
Fonte: Gallup, Span of Control: What's the Optimal
Team Size for Managers?, 13 jan. 2026.
É nesse contexto que ganha força a imagem do “megagerente”:
o profissional que permanece depois de uma reorganização, absorve equipes
maiores e passa a responder simultaneamente por operação, pessoas,
transformação, cultura e tecnologia.
A estrutura fica mais enxuta.
O papel do gestor, não.
Ele se expande.
Os sinais de desgaste já aparecem nos dados
O problema não é apenas uma percepção de sobrecarga.
O State of the Global Workplace 2026, do Gallup,
mostra uma deterioração relevante no engajamento dos gestores.
Em 2022, 31% dos gestores estavam engajados no trabalho.
Em 2025, esse percentual caiu para 22%.
São nove pontos percentuais de queda em apenas três anos.
Entre 2024 e 2025 ocorreu a maior redução anual do período:
de 27% para 22%.
Enquanto isso, o engajamento dos profissionais sem
responsabilidade de gestão permaneceu muito mais estável. Isso levou o Gallup a
concluir que a queda no engajamento dos gestores explica uma parcela importante
da deterioração recente do engajamento global.
Fonte: Gallup, State of the Global Workplace 2026.
Isso deveria preocupar qualquer organização.
Porque o gestor não é apenas mais um profissional dentro da
experiência do colaborador.
Ele é uma das pessoas que ajudam a construí-la.
É o gestor que frequentemente transforma uma prioridade
corporativa em uma decisão prática.
É ele que explica uma mudança para a equipe.
Que organiza prioridades concorrentes.
Que dá feedback.
Que percebe um conflito antes que ele cresça.
Que identifica uma pessoa pronta para assumir mais
responsabilidade.
Que traduz uma mensagem genérica da liderança para a
realidade concreta da operação.
Quando essa camada se desengaja, a perda não fica restrita a
ela.
Espalha-se pela organização.
A inteligência artificial tornou essa discussão ainda
mais importante
Existe uma ironia interessante acontecendo nas empresas.
A IA, que poderia liberar gestores de atividades
administrativas e devolver tempo à liderança, também está sendo usada como
argumento para ampliar equipes e reduzir camadas gerenciais.
Isso pode funcionar.
Mas somente se a tecnologia realmente retirar trabalho do
sistema.
Caso contrário, ela apenas adiciona uma nova
responsabilidade à lista.
O gestor continua responsável pelas pessoas, pelos
resultados, pelas reuniões e pelos indicadores e agora também precisa aprender
novas ferramentas, redesenhar processos, incentivar a equipe a utilizar IA,
controlar riscos, revisar outputs e traduzir uma estratégia tecnológica que
muitas vezes foi definida longe da operação.
Uma pesquisa conduzida pela Wharton Human-AI Research e pela
GBK Collective ajuda a dimensionar a velocidade dessa transformação.
Em 2025, 82% dos líderes empresariais pesquisados
disseram utilizar IA generativa pelo menos semanalmente, contra 72% em
2024. O uso diário chegou a 46%. Além disso, 88% esperavam aumentar os
investimentos em IA no ano seguinte.
Ao mesmo tempo, os pesquisadores destacaram um desafio
importante: desenvolvimento de capacidades, treinamento e preparação
organizacional ainda não acompanham necessariamente o ritmo da adoção.
Fonte: Wharton Human-AI Research / GBK Collective, Accountable
Acceleration: Gen AI Fast-Tracks Into the Enterprise, out. 2025.
Ou seja: a tecnologia está chegando rapidamente.
A capacidade organizacional de incorporá-la talvez não
esteja avançando na mesma velocidade.
E grande parte dessa conta chega exatamente à média
liderança.
Existe um gap entre quem define a transformação e quem
precisa fazê-la funcionar
Em abril de 2026, a Harvard Business Review chamou
atenção para outro aspecto crítico da adoção de IA: executivos e gestores
intermediários frequentemente enxergam a transformação de maneiras diferentes.
Para a alta liderança, a IA tende a aparecer como
oportunidade estratégica, investimento, produtividade futura e vantagem
competitiva.
Para quem gerencia a operação, ela aparece dentro do fluxo
real de trabalho.
Com sistemas que nem sempre conversam entre si.
Processos legados.
Pessoas em diferentes níveis de maturidade.
Pressão por resultados imediatos.
Dúvidas sobre governança.
Falta de tempo.
E problemas que não estavam nos slides da estratégia.
Segundo os autores, iniciativas de IA podem perder
velocidade justamente porque os gestores encarregados de implementá-las vivem
uma realidade diferente daquela percebida pelos executivos.
A recomendação é significativa: antes de simplesmente
aumentar a pressão por adoção, as empresas precisam entender a prontidão
organizacional, envolver os gestores no planejamento, reduzir cargas
administrativas e criar canais pelos quais problemas da execução cheguem à
liderança.
Fonte: Jeremy Korst, Stefano Puntoni e Prasanna
Tambe, Managers and Executives Disagree on AI—and It's Costing Companies,
Harvard Business Review, 8 abr. 2026.
A mensagem por trás da pesquisa é maior do que a própria IA.
Estratégia não fracassa apenas porque foi mal formulada.
Ela também fracassa quando a organização não preserva capacidade suficiente
para traduzi-la.
A média liderança é uma camada de tradução
Talvez parte do problema esteja na forma como aprendemos a
enxergar o middle management.
Em estruturas muito burocráticas, níveis excessivos de
gestão realmente podem gerar lentidão, duplicação de decisões e perda de
autonomia.
Eliminar burocracia desnecessária é saudável.
Mas “gestão intermediária” e “burocracia intermediária” não
são sinônimos.
Uma organização precisa perguntar não apenas quantas camadas
possui, mas qual trabalho essas camadas realizam.
Porque bons gestores intermediários desempenham pelo menos
quatro funções críticas:
1. Traduzem a estratégia
Transformam conceitos amplos: crescimento, eficiência,
experiência do cliente, transformação digital, inovação em prioridades
compreensíveis para quem executa.
2. Organizam a execução
Resolvem conflitos entre demandas, distribuem recursos,
sequenciam prioridades e evitam que toda urgência vire prioridade.
3. Desenvolvem pessoas
Criam contexto, dão feedback, acompanham desempenho e ajudam
profissionais a evoluírem.
4. Conectam a realidade da operação à liderança
Levam para cima aquilo que dashboards nem sempre mostram:
resistências, riscos emergentes, dificuldades práticas e sinais culturais.
É exatamente essa função de tradução que voltou ao centro
das discussões sobre inteligência artificial.
Em artigo publicado em 1º de setembro de 2026, a Harvard
Business Review foi explícita: os middle managers podem determinar o
sucesso ou o fracasso da adoção de IA.
A razão é simples.
São eles que transformam uma intenção executiva em
comportamento cotidiano.
Uma empresa pode aprovar orçamento, escolher ferramentas e
anunciar uma transformação. Ainda assim, é na média liderança que se decide se
a IA entrará efetivamente no fluxo de trabalho, permanecerá como experimento
lateral ou será silenciosamente abandonada.
Fonte: Gleb Tsipursky, Middle Managers Will Make
or Break AI Adoption, Harvard Business Review, 1º set. 2026.
Isso muda a pergunta.
Em vez de questionar:
“Quantos gestores conseguimos eliminar usando IA?”
talvez a questão estratégica seja:
“Que tipo de gestão precisamos preservar “e ampliar” para
extrair valor da IA?”
O risco de exigir liderança estratégica de alguém que
opera em modo sobrevivência
Existe uma contradição recorrente nas organizações atuais.
De um lado, queremos líderes mais estratégicos.
Queremos que pensem no futuro.
Desenvolvam pessoas.
Criem segurança psicológica.
Conduzam transformação.
Estimulem inovação.
Tomem decisões melhores.
Construam cultura.
Do outro, ampliamos o número de pessoas sob sua
responsabilidade, mantemos sua carga operacional, aumentamos a quantidade de
indicadores e adicionamos novas agendas de transformação.
Em algum momento, essas duas expectativas entram em
conflito.
Não porque o gestor não queira liderar.
Mas porque liderança exige capacidade.
Capacidade cognitiva.
Capacidade emocional.
Capacidade relacional.
E, sobretudo, tempo.
O Gallup encontrou um dado particularmente revelador sobre
isso. Gestores que dedicam mais de 40% de seu tempo a trabalhos de contribuição
individual apresentam menor engajamento, e o problema tende a se intensificar à
medida que o número de liderados aumenta.
Além disso, uma das práticas mais associadas ao engajamento
dos colaboradores é oferecer feedback significativo pelo menos semanalmente.
Essas conversas não precisam ser longas. Segundo o Gallup,
encontros consistentes de aproximadamente 15 a 30 minutos podem ser
suficientes.
Mas existe uma condição óbvia:
o gestor precisa ter espaço na agenda para fazê-los.
Fonte: Gallup, Span of Control: What's the Optimal
Team Size for Managers?, 2026.
Quando não existe esse espaço, aquilo que é essencial começa
a ser substituído pelo urgente.
O desenvolvimento vira cobrança.
A conversa vira mensagem.
A reflexão vira reunião.
A estratégia vira checklist.
E a liderança passa a administrar fluxo em vez de construir
capacidade.
A Matriz C.O.R.E.: quatro perguntas para avaliar a saúde da média liderança
Antes de redesenhar estruturas ou ampliar o número de pessoas por gestor, empresas podem avaliar quatro dimensões fundamentais da capacidade de liderança.
C - Clareza
O gestor sabe exatamente o que é prioridade?
Quanto maior o número de demandas simultâneas, mais
importante se torna estabelecer escolhas explícitas.
Não basta comunicar objetivos.
É necessário esclarecer o que deve ser priorizado quando
objetivos entram em conflito.
Uma liderança sem clareza passa boa parte do tempo
negociando prioridades que já deveriam ter sido decididas.
O - Oxigênio operacional
Existe espaço para pensar ou o gestor passa o dia
reagindo?
Aqui está um dos indicadores mais negligenciados da saúde
gerencial.
Qual percentual da agenda é consumido por reuniões
operacionais, atualização de sistemas, atividades técnicas, aprovação de
processos e resolução de urgências?
Se toda capacidade disponível é absorvida pela operação,
pedir pensamento estratégico não resolve o problema.
É necessário redesenhar o trabalho.
R - Relações
O gestor ainda consegue desenvolver pessoas ou apenas
acompanhar entregas?
Uma equipe não precisa somente de tarefas distribuídas.
Precisa de contexto, feedback, reconhecimento, conversas
difíceis e desenvolvimento.
Se o aumento do span of control torna impossível
manter essas relações com qualidade, a economia obtida com a redução de
gestores pode gerar um custo posterior em engajamento, desenvolvimento e
retenção.
E - Execução
A estratégia foi realmente traduzida para comportamentos,
decisões e prioridades?
Esse talvez seja o teste definitivo.
Não importa quanto uma estratégia faça sentido no nível
executivo.
Se a pessoa na ponta não consegue responder “o que isso muda
no meu trabalho amanhã?”, existe uma lacuna de execução.
E essa lacuna frequentemente aparece justamente no espaço
que a média liderança deveria ocupar.
O futuro talvez tenha menos gestores. Mas precisará de
mais liderança.
A discussão não precisa terminar em uma defesa das
estruturas hierárquicas tradicionais.
A IA provavelmente permitirá automatizar atividades
administrativas, simplificar processos e redesenhar organizações.
A McKinsey, por exemplo, vem discutindo a possibilidade de
estruturas mais horizontais à medida que agentes de IA aumentam a capacidade
das pessoas e alteram a distribuição do trabalho. Ao mesmo tempo, a consultoria
destaca que papéis precisarão ser profundamente redesenhados e que
desenvolvimento de capacidades continua sendo uma condição importante para essa
transformação.
Fonte: McKinsey & Company, AI is everywhere.
The agentic organization isn't—yet, 2026.
Portanto, o debate mais produtivo não é “estrutura
hierárquica versus estrutura horizontal”.
É outro:
qual desenho organizacional preserva a capacidade
necessária para executar a estratégia, desenvolver pessoas e conduzir mudanças?
Porque remover uma camada do organograma é fácil.
Redistribuir adequadamente o trabalho que ela realizava é
muito mais difícil.
Quando isso não acontece, o trabalho não desaparece.
Ele sobe para os executivos.
Desce para as equipes.
Ou se concentra nos gestores que permaneceram.
E é nesse momento que nasce o megagerente: alguém com mais
pessoas, mais escopo, mais tecnologia e mais responsabilidade — mas sem
necessariamente receber mais capacidade para liderar.
A inteligência artificial pode ser parte da solução.
Pode reduzir tarefas administrativas, ampliar acesso a
informação, apoiar decisões e liberar gestores para realizar mais daquilo que
realmente exige julgamento humano.
Mas isso exige uma escolha consciente de desenho
organizacional.
Se a produtividade gerada pela tecnologia for usada
apenas para aumentar o número de pessoas e responsabilidades por gestor, talvez
não estejamos reinventando a liderança.
Talvez estejamos apenas comprimindo-a.
E empresas que comprimem demais sua capacidade de liderança
podem descobrir que economizaram no organograma aquilo que depois perderam em
alinhamento, cultura e execução.
Referências
ao final da página do site.
- HARTER,
Jim. Span of Control: What’s the Optimal Team Size for Managers?
Gallup, 13 jan. 2026.
Acessar artigo no Gallup
- GALLUP.
State of the Global Workplace 2026. Gallup, 2026.
Acessar State of the Global Workplace no Gallup
- KORST,
Jeremy; PUNTONI, Stefano; TAMBE, Prasanna. Managers and Executives
Disagree on AI—and It’s Costing Companies. Harvard Business Review, 8
abr. 2026.
Acessar artigo na Harvard Business Review
- TSIPURSKY,
Gleb. Middle Managers Will Make or Break AI Adoption. Harvard
Business Review, 1º set. 2026.
Acessar artigo na Harvard Business Review
- WHARTON
HUMAN-AI RESEARCH; GBK COLLECTIVE. 2025 AI Adoption Report: Gen AI
Fast-Tracks Into the Enterprise. Knowledge at Wharton, 2025.
Acessar relatório da Wharton
- MCKINSEY
& COMPANY. AI is everywhere. The agentic organization
isn’t—yet. McKinsey & Company, 2026.
Acessar estudo da McKinsey

